Rio Maior Cidade Viva

Augusto LopesFRIMOR,
Os desafios do Presente


A mais emblemática feira do concelho, pela sua longa história de mais de dois séculos, pela sua importância sócio-cultural em tempos não muito recuados e de significativo isolamento, mas sobretudo pelas dinâmicas que produziu e pelo desenvolvimento económico que sustentou, está hoje numa encruzilhada. Tem, por isso, um grande desafio pela frente: manter viva a tradição e, simultaneamente, realizar a imprescindível modernização.

Quem tem presente, ainda que levemente, a última meia dúzia de edições sabe que falamos de um evento parado no tempo, sem fôlego, que repete processos e modelos, com um horizonte limitado. Desenganem-se, contudo, os que entendem ser fácil mudar o rumo, imprimir-lhe alma nova, mesmo que por adição de uns quantos modernismos.

O respeito à tradição, razão primeira em nosso entender para continuar, obriga à permanência e reforço das singularidades que fizeram a feira de setembro e lhe deram a continuidade de que hoje se pode orgulhar e que importa salientar. O timing da feira é indiscutivelmente o mais apropriado para a comercialização do seu produto genuíno, mas não pode também ser aproveitado para lançamento de outros produtos agrícolas, florestais, agro-industriais, que o concelho e a região produzem ?

Vemos todos os anos surgirem novas feiras e mercados, de nível nacional e internacional, com propostas arrojadas, produtos e ideias inovadoras, acompanhadas de importantes pacotes de marketing que tudo vendem e fazem sonhar. É certo que o campo agrícola é menos dinâmico, mais rotineiro, menos susceptível à mudança, mas não nos podemos conformar com os hábitos e vícios do passado, tanto mais que outras comunidades por essa Europa fora souberam, com mestria, realizar a mudança.

Mas a mudança de que falo não é apenas a mudança de rumo de quem está ao leme. A mudança tem que ser geral, de todos, a começar pelos interessados. Por agora ainda basta oferecer cebolas ao quilo, amanhã já tenho dúvidas porque as grandes superfícies vão, mais tarde ou mais cedo, pegar no negócio. Por isso, é preciso que os produtores que vêm a Rio Maior tenham presente que sendo 'pequenos produtores' e querendo conservar nas suas mãos o que há gerações lhes é devido, não podem dispensar a complementaridade, própria ou de terceiros, que enriquecerá a oferta.

Impõe-se, portanto, a diversificação sendo certo que é ao mundo agrícola que deve competir, em primeira instância, a definição dos caminhos a tomar. Importa, por isso, sentar à mesa ou à volta da lareira, todos os agentes e fazê-los participar nas decisões, quer dizer, comprometendo-os nos caminhos do futuro.
Não é tarefa fácil. Num país onde a agricultura sofre de problemas endémicos que nem a reforma agrária dos finais de setenta ou as importantes ajudas comunitárias à produção de meados de oitenta conseguiram fazer sair do triste abismo em que o país continua mergulhado. Todos sabemos que em matéria alimentar o país não é auto-suficiente, nunca foi aliás, mas isso não devia ser obstáculo.

A produtividade e competitividade de que tanto se fala tem, no campo agrícola, raízes bem mais profundas. É na atitude mental que se jogam todas as oportunidades, mas essas têm suporte não apenas no saber da experiência feita, mas sobretudo da ciência estudada e aplicada.

Não me posicionando, neste escrito, como grande defensor das ideias fisiocratas, para quem a terra era o valor supremo e gerador de todos os desenvolvimentos, por oposição aos adeptos da industrialização porque mais riqueza produz e mais qualifica, devo contudo salientar a importância que ambas as actividades económicas têm no tecido empresarial do concelho e reafirmar a necessidade de partilharem projectos comuns, aproveitando sinergias e, porque não, emprestar modernidade à tradição de Setembro.

Uma palavra, por último, às Associações que, enquanto entidades depositárias de saberes e promotoras de dinâmicas, não podem ficar à margem. Pelo contrário, têm que fazer interessar e criar a necessidade de, em conjunto, se pensar nas futuras edições da FRIMOR.

Augusto Lopes

Frimor 2002
Colunistas
Convidados
Dr. Silvino Sequeira
Arlino Santos
António Rôla
Dr. António Carneiro
Violante Ferreira
Vitor João
Augusto Lopes
Daniel Pinto
João Sequeira
Paulo Aguiar

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