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Expresso
nº 1549 de 06 Julho 2002
Dependência
de Espanha-II Reitero que tal opção é um erro económico grave e é também um erro estratégico. Não sou anti-espanhol. Admiro até o espírito e a «raça» que em todos os domínios, da cultura à economia, fizeram do nosso vizinho uma potência respeitada no mundo. Até à idade adulta, vivi junto à fronteira norte, e a minha cidade de destino era Salamanca. Nas suas livrarias descobri a força do espírito espanhol, com as leituras de Unamuno, Ortega, Azorín, Valle Inclán, António Machado, Lorca e Vicente Aleixandre. Um país que deu ao mundo Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz, Velásquez, Goya e Picasso é um país para o qual se deve olhar com respeito. Ao tentar conquistar mercados, alargar influências e expandir a sua cultura, a Espanha faz o seu papel. Não é isso que critico. O que critico é que em Portugal nós não façamos o nosso, e que possamos tomar decisões que condicionam o nosso futuro de forma apressada, ao sabor de circunstâncias eleitorais e sem estudo. Voltemos à OTA e ao TGV. Barroso disse, em plena campanha, que enquanto houvesse um português em lista de espera para os hospitais e com reformas de miséria, não havia aeroporto da OTA nem TGV. Eu sei que em campanhas se cometem muitos deslizes e se prometem coisas insensatas. Não é nada que a responsabilidade inerente ao exercício do poder não possa curar. O que é grave é que depois de se estar ao leme do barco se possa continuar a decidir com leveza. Porque é isso que está a acontecer: tentar emendar um erro cometendo outro erro. Barroso anunciou recentemente o seguinte: 1º - Afinal, vai construir-se o aeroporto da OTA, mas quatro anos mais tarde em relação ao previsto. 2º - Até lá, amplia-se o actual aeroporto de Lisboa. 3º - Imediatamente, dá-se prioridade ao TGV para Badajoz. Porque é que estas decisões são um erro económico? Porque vamos pagar mais pela ampliação do aeroporto actual, do que pela construção de um novo. Na OTA, as previsões de gastos suportados pelo Estado e pela UE orçavam os 100 milhões de contos. A ampliação do aeroporto actual custará, só ao Estado português, 130 milhões de contos! Não se compreende que se pague mais pela renovação de uma infra-estrutura que será provisória, do que se pagaria pela definitiva. Mas também porque o que se pagará pelo TGV, entre Estado e EU, é de cerca de 500 milhões de contos, ou seja, 5 vezes mais do que a OTA! Porque é que esta decisões são um erro estratégico? Porque enquanto a OTA serve para nos ligar ao mundo, o TGV serve para nos ligar a Madrid. Porque enquanto a OTA constituiria um centro multimodal de transporte, que nos integraria nos nós das redes mundiais de tráfego, o TGV, ao ser mais um alimentador das redes espanholas, apenas acentua a nossa componente periférica. Porque se há prioridade na renovação da ferrovia na ligação com a Espanha e a Europa, ela situa-se noutro tipo de transporte, que é o de mercadorias, ligando privilegiadamente as descargas dos portos de Sines e de Aveiro com o espaço europeu. O mais sábio
dos actuais políticos portugueses, Adriano Moreira, explicava muito
bem esta semana no «DN» porque é que a defesa nacional
não é apenas militar. Mas, para nosso infortúnio,
há muito que a sabedoria está a perder cotação
na bolsa do poder. |
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