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Expresso
nº 1531 de 02 Março 2002
Artigos de Opinão - Rosa dos Ventos

«Parece-me
ser muito mais ajuizado preparar o aeroporto militar do Montijo para
receber tráfego civil, a fim de nos colocar ao abrigo de uma inesperada,
mas teoricamente possível, 'saturação' precoce do Aeroporto de Lisboa.
E com esta solução provisória de 'almofada' pronta a funcionar, decidir
na altura oportuna avançar para o aeroporto da Ota quando for caso
disso.» |
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O
aeroporto da Ota
O PRESIDENTE do PSD anunciou com clareza que se for primeiro-ministro
não considerará como prioritária no seu programa de Governo a construção
do novo Aeroporto Internacional de Lisboa na Ota. Ou seja, que o aeroporto
não se construirá na próxima legislatura.
Não posso estar mais de acordo.
Num país onde é gritante a carência de infra-estruturas de todo o género
e isso é causa de bloqueios inultrapassáveis ao desenvolvimento, o mínimo
que será de exigir aos responsáveis é uma lógica de prioridades na aplicação
de recursos que não abundam. E que essa lógica seja seguida com rigor.
Construir o novo aeroporto internacional de Lisboa já, quando existe um
a funcionar satisfatoriamente, corresponderia a despender recursos (gigantescos)
com o estranho objectivo de resolver problemas que agora não existem.
Ao mesmo tempo que obrigaria a deixar por resolver, por ser pouco o que
sobrava, verdadeiros e graves problemas que se arrastam há tanto tempo
em todo o país e que não podem esperar mais tempo por solução.
É claro que se argumenta com a futura «saturação» do actual aeroporto.
Mas sobre isso não há, nem pode haver, duas opiniões idênticas. Ninguém
pode saber com suficiente certeza em que data o Aeroporto estará saturado
- nem mesmo se algum dia o estará.
Parece-me ser muito mais ajuizado preparar o aeroporto militar do Montijo
para receber tráfego civil, a fim de nos colocar ao abrigo de uma inesperada,
mas teoricamente possível, «saturação» precoce do Aeroporto de Lisboa.
E com esta solução provisória de «almofada» pronta a funcionar, decidir
na altura oportuna avançar para o aeroporto da Ota quando for caso disso.
Estaremos ainda longe dessa fase. O que me parece que seria muito mau
era o país perverter completamente a lógica das suas prioridades em investimentos
públicos simplesmente para prevenir uma situação que provavelmente não
ocorrerá e que, mesmo que ocorra, tem soluções muito mais práticas e muito
mais baratas para provisoriamente se lhe fazer frente.
O Partido Socialista, com a má consciência de tudo aquilo que deixou por
fazer, julga ter descoberto finalmente a quinze dias das eleições a imagem
que nunca conseguiu construir para si próprio de «fazedor». Argumenta
que o investimento é privado, que não pesa nas contas públicas, salvo
o que vem da Europa (e que não é pouco). O que não é seguramente verdade.
Só não se sabe em quanto não é verdade porque nem sequer ainda isso foi
avaliado.
Mas o mais espantoso é que ele próprio se contradiz nesta prioridade que
diz atribuir. Se considera o aeroporto da Ota tão importante e tão prioritário,
como se explica que ao fim de quase sete anos de andar com ele às voltas
ainda nem um pedra tenha sido posta na sua construção? Que estranha prioridade
é esta que nem um aeroporto de papel enrolado produziu ao fim deste tempo
todo? Ao fim deste tempo todo e também ao fim de tantos administradores
nomeados - matéria em que o PS é sempre peculiarmente lesto.
Contra o
seu próprio discurso, o Governo socialista acabou por seguir, por linhas
tortas, os critérios de bom senso que hoje se recomendam. Não considerou
o aeroporto da Ota como prioritário. Ao fim de sete anos, nem sequer começou
a construí-lo.
E-mail: famaral@netcabo.p
«Parece-me
ser muito mais ajuizado preparar o aeroporto militar do Montijo para receber
tráfego civil, a fim de nos colocar ao abrigo de uma inesperada, mas teoricamente
possível, 'saturação' precoce do Aeroporto de Lisboa. E com esta solução
provisória de 'almofada' pronta a funcionar, decidir na altura oportuna
avançar para o aeroporto da Ota quando for caso disso.»
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