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Expresso
nº 1533 de 15 Março 2002
Artigos de Opinão - Opinião
A.
Fonseca Ferreira*
«Os empreendimentos estratégicos - como o novo aeroporto da Ota -
não podem ser protelados.
Tão pouco devem ser usados demagogicamente, como avulsa moeda de troca
de medidas conjunturais.»
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O
novo aeroporto internacional na Ota
A
CONSTRUÇÃO de um novo aeroporto internacional em Lisboa foi estudada e
ponderada ao longo de 30 anos. Desde 1969 - quando foi para o efeito criado
o GNAL (Gabinete do Novo Aeroporto em Lisboa) - até 1999, ano em que o
Governo anunciou a opção pela localização na Ota.
O investimento
num novo aeroporto internacional justifica-se por razões económicas, de
desenvolvimento e soberania. Além, naturalmente, da necessidade de melhorar
os níveis de segurança e de qualidade ambiental, garantindo, ao mesmo
tempo, o indispensável aumento da capacidade de transporte aéreo.
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O novo aeroporto é indispensável para assegurar, a partir de 2010, os
fluxos de tráfego aéreo de negócios, diplomático, familiar, e ainda, os
relacionados com o turismo e o lazer, segmentos económicos em que Portugal
é internacionalmente competitivo. De acordo com as estimativas mais prudentes
de evolução de tráfego aéreo, a Portela terá as suas capacidades de acolhimento
e expansão esgotadas a partir de 2008/2010.
A actual capacidade da Portela é de 10 milhões de passageiros/ano (mpa),
tendo movimentado em 2001 mais de 9,3 milhões.
Decorrem
obras de ampliação para 12mpa, volume de tráfego que se prevê atingir
em 2005/2006. Estudos técnicos consistentes indicam, entretanto, que a
capacidade da Portela poderá ser ampliada até 14mpa, investindo mais 40
a 50 milhões de contos na expansão da aerogare, na melhoria da circulação
e estacionamento das aeronaves e nas acessibilidades do Aeroporto.
Essas
obras permitirão prolongar a operacionalidade da Portela até 2008/2010.
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Porque tem havido muitos equívocos e imprecisões sobre as possibilidades
de ampliação da Portela, importa examinar a questão com maior detalhe
e profundidade.
A capacidade
de um aeroporto depende de quatro subsistemas: pistas, aerogares, acessos
terrestres e plataformas de estacionamento das aeronaves. Na Portela,
é possível ampliar a capacidade das pistas e aerogares para lá de 14mpa.
Com
muitos custos e perda de mobilidade é possível sustentar os acessos terrestres.
Mas com a Portela «encaixada» entre as urbanizações do Alto do Lumiar,
dos Olivais e Camarate, é totalmente impossível assegurar espaço para
o estacionamento de aviões além do tecto de 14mpa.
A Portela
tem, actualmente, capacidade de estacionamento para 37 aeronaves. O limite
máximo de expansão do estacionamento e caminhos de circulação é de 57
posições, correspondente aos referidos 14 milhões de passageiros anuais.
Na carga aérea, a capacidade máxima da Portela - 100 mil toneladas/ano
- foi já atingida em 1998.
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A construção de um novo aeroporto internacional é uma oportunidade única
para o desenvolvimento de novas indústrias e para a modernização da logística.
Um
novo aeroporto, moderno e funcional, como o da Ota, poderá desencadear
a criação de novas actividades produtivas, com particular realce para
a indústria electrónica.
O suporte
principal da transacção dos produtos desta indústria, de elevadas taxas
de crescimento, é o transporte aéreo. Portugal e a Região de Lisboa e
Vale do Tejo dispõem das condições de conhecimento, recursos humanos e
empresários para responderem ao desafio. Assim se implemente uma estratégia
sustentada para aproveitar essa singular oportunidade.
Um aeroporto
é, em si mesmo, uma grande plataforma logística, indutora de novas actividades,
da modernização e reordenamento das existentes.
Com visão,
planeamento e organização, a Ota poderá constituir a oportunidade de ouro
para esse efeito.
Assim
haja capacidade de antecipação e organização, tal como aconteceu com a
preparação e execução da Expo-98, com os visíveis benefícios de requalificação
urbana, ambiental, económica e logística da zona oriental de Lisboa.
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A construção do aeroporto internacional da Ota, constitui, por outro lado,
uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento regional. A Estremadura,
o Ribatejo, a Região Centro e o Alentejo central e norte são territórios
para onde o novo aeroporto irradiará oportunidades industriais e de prestação
de serviços residenciais que constituirão um «choque» de desenvolvimento
para territórios de elevada qualidade ambiental e recursos produtivos.
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A localização de um aeroporto internacional no centro da cidade, como
é o da Portela, é um perigo suspenso, além de que o ruído e os gases produzidos
pelos motores dos aviões causam danos ambientais intoleráveis.
É certo
que o transporte aéreo tem melhorado a sua segurança e não é, em termos
relativos, menos seguro que as alternativas ferroviária ou rodoviária.
Mas também é certo que as quedas de aviões, particularmente durante as
descolagens e as aterragens, têm continuado a acontecer - e, regra geral,
com mais trágicas consequências quando ocorrem em zonas povoadas.
E se
tudo isto é gravoso para um aeroporto que movimenta 9mpa, com aterragens
e descolagens que medeiam 10/15 minutos, como é possível admitir a manutenção
da Portela num quadro de tráfego duplo ou triplo, com aterragens e descolagens
ao ritmo de 3/5 minutos?
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É necessário compreender que a não construção, nos prazos necessários,
de um novo aeroporto internacional, lesará gravemente interesses nacionais
estratégicos e poderá mesmo afectar a soberania nacional - particularmente,
a posição de Portugal na Península Ibérica e na Europa alargada.
Em época
de fronteiras abertas, de globalização, a soberania das nações repousa
- para lá dos seus valores culturais e identitários - na capacidade competitiva
para assegurar interesses e serviços estratégicos. É o caso dos fluxos
turísticos, das ligações às comunidades portuguesas e linguísticas da
América do Sul, África e Oriente.
Com uma companhia
de bandeira, que vem mostrando a sua viabilidade, a manutenção sob gestão
nacional desses fluxos de tráfego é fundamental.
Doutro modo, será Espanha, via Madrid, a absorver este importante segmento
económico e de relacionamentos. E ficará definitivamente prejudicada a estratégia
de fazer de Portugal a primeira plataforma atlântica da Europa e de participar
- com Espanha, mas de forma autónoma - numa nova centralidade europeia e
mundial.
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O financiamento do novo aeroporto será assegurado através de 65 milhões
de contos de Fundos Comunitários e por capitais privados, em parceria com
a ANA.
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É admissível algum retardamento no programa de obras públicas, a favor do
investimento produtivo e da resolução de problemas sociais mais graves.
A terceira travessia do Tejo, em Lisboa, é um exemplo. A sua construção
só se justifica quando Portugal tiver um plano ferroviário bem definido
nas suas componentes nacional, regional e de alta velocidade.
Algumas das obras rodoviárias previstas podem também ser retardadas sem
consequências funestas. E é possível - e necessário - conter as escandalosas
derrapagens financeiras do Euro-2004.
Mas os
empreendimentos estratégicos - como o novo aeroporto da Ota - não podem
ser protelados. Tão pouco devem ser usados demagogicamente, como avulsa
moeda de troca de medidas conjunturais.É
preciso lembrar, para que se não repita, o lamentável caso de Alqueva, cujo
adiamento hipotecou durante décadas o desenvolvimento de uma região e do
próprio país.
* Presidente
da CCR de Lisboa e Vale do Tejo |
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